ADUFMS apoia evento que discute jornalismo investigativo e democracia no Brasil

01 jan, 1970 Adufms

Professores recebem homenagem em celebração ao centenário de Paulo Freire


⇒NA NOITE DA ÚLTIMA QUARTA-FEIRA 21

aconteceu no auditório da Federação dos Trabalhadores em Educação de Mato Grosso do Sul (

FETEMS

) em Campo Grande a palestra


Jornalismo investigativo e  democracia: a experiência do The Intercept Brasil


, com o jornalista Leandro Demori, editor-executivo do The Intercept Brasil (TIB), que objetivou falar um pouco sobre a conjuntura sociopolítica do país, observada a experiência do

site

TIB de notícias, que tem desconstruído as entranhas do Judiciário e do Ministério Público Federal (MPF), envolvidos em abusos de poder, conchavos e crimes na Operação Lava Jato. O evento foi organizado pelo coletivo Jornalistas pela Democracia, Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Mato Grosso do Sul (

Sindjor-MS

), pelo curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e contou com apoio da

ADUFMS Seção Sindical ANDES Sindicato Nacional

,

ADUEMS

(Sindicato dos Docentes da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul – Seção Sindical do ANDES-SN) bem como outras entidades.






Esquerda para direita:

Ana Cláudia Salomão, Walter Gonçalves e Leandro Demori

– Fotos: Gerson Jara/ADUFMS Seção Sindical ANDES Sindicato Nacional

No começo de sua fala Demori lembrou da efervescência das ruas em junho 2013, que movimentou todo o Brasil após a repressão policial aos movimentos pelo passe livre em São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ).  Atos de solidariedade foram realizados país a fora.

O editor do The Intercept Brasil explicou que todas as suas palestras têm sido de graça e arrancou aplausos da plateia ao criticar  indiretamente o procurador do MPF em Curitiba (PR), Deltan Dallagnol, que cobrou por palestras milionárias para banqueiros e demais investidores ao se destacar na Lava Jato. Na série de reportagens da Vaza Jato realizada pelo TIB e veículos parceiros há diálogos que Dallagnol confabula com outro procurador para abrir uma empresa de palestras, igual a dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (FHC) e Lula, porém nos nomes de suas esposas, que seriam laranjas, já que procuradores são proibidos de ter empresas.

Sobre a realidade do jornalismo investigativo, Demori comenta que é mais fácil fazer as denúncias no TIB, na sede da empresa no Rio de Janeiro, do que no interior do Brasil, onde as oligarquias ainda comandam os grotões. “Uma coisa é você fazer o Intercept lá e outra é você fazer o Intercerpt aqui, que é muito difícil de se fazer, muito mais difícil. Não tem comparação”, lembrou o jornalista.

O Brasil é um dos países que lideram violências contra jornalistas e outros profissionais da comunicação, em geral no interior do país. Leandro afirmou que fazer jornalismo investigativo no Brasil é caro e arriscado. “Temos no Brasil um número de assassinatos de jornalistas que é um absurdo comparado com outras democracias no mundo”, observou.

Ele explica sua teoria para o momento político atual, citando os protestos da primeira metade da década de 2010, em que setores conservadores ligados à direita radical global começaram a perceber que os governos de esquerda latino-americanos não conseguiam mais dar respostas às demandas das ruas. “Quando ocorrem as jornadas de junho 2013, essas entidades [conservadoras], procurem depois por Atlas (Network) no TIB, mapeiam as instituições, quem são as pessoas importantes nas universidades, no Ministério Público, Judiciário e Imprensa. Pegam as instituições como pilares e começam a investigar quem estava no topo desses pilares  e começam a fazer uma lista de nomes, de pessoas físicas.”

Esse mapeamento, depois de feito com centenas e centenas de nomes, era utilizado para formar lideranças de direita. “Essas entidades [conservadoras] pegaram jovens que queriam participar da política, entrar para vida política pós-jornadas de junho de 2013 e fazem treinamento de comunicação de massa com MBL [Movimento Brasil Livre], outros movimentos congêneres, agindo com a emoção das pessoas. Todo mundo sabe que o voto é decidido na emoção. As pessoas não votam racionalmente.”

Então essas pessoas são treinadas com técnicas de comunicação de massa, usando basicamente a estratégia do deboche, pegam aquelas listas das pessoas das principais instituições do país e tentam destruí-las com um humor ácido, cheio de ironias, sátiras e noticias falsas. “Essa prática começou em 2013. Aí paramos onde paramos [eleição do Bolsonaro]”, criticou o editor do TIB.

“No meio dessa quizumba toda aparece a Lava Jato, que começa em 2014, em uma operação localizada, menor e regional. Não temos condições de afirmar que a Lava Jato foi montada para interferir no processo eleitoral [eleições de 2014 e 2018], não é possível afirmar com o material catalogado até agora. Mas é possível afirmar no que a Lava Jato se transformou”, pontuou Demori.







Profissionais de vários setores, sindicalistas, integrantes de movimentos sociais e estudantes lotam auditório da

FETEMS

para assistir à palestra de Leandro Demori


Mercado do jornalismo

A mudança na área da comunicação digital e publicidade tem feito com que redações inteiras sejam fechadas e substituídas por anúncios nas plataformas digitais como Facebook, WhatsApp, Instagram ou Twitter.

“O dinheiro que era investido em páginas de jornais e revistas começa a ser migrado para plataformas digitais de mídia como Google e Facebook. As redações começam a perder força, com demissões e ficando cada vez mais enxutas. A empresa que investia nas páginas amarelas da Veja para atingir milhares de pessoas e vender margarina notou que a internet é muito mais barata e eficiente para vender. O

marketing

das empresas não está preocupado com regime democrático. Querem vender mais, enquanto não surge uma mídia independente, constante e forte economicamente para contrapor a esse sistema.”

Com enfraquecimento das grandes empresas de comunicação, os veículos independentes não conseguem suprir espaço deixado pela grande mídia. “Há projetos como a Pública, a Ponte, As Minas, Marco Zero, o próprio TIB e não conseguem ocupar esse mercado deixado pela grande imprensa e ocupado pelas

fake news.”

A forma de leitura nos smartphones mudou. As pessoas não têm a mesma noção de diagramação da notícia. “Hoje elas leem as notícias do WhatsApp, do Facebook. Não há mais a percepção que aquele

link

de matéria pertence à Folha de S.Paulo, ao Estadão. Elas perdem esse contato visual com veículos de comunicação e têm contato visual com as plataformas Whats, Facebook e Twitter. Isso faz com que as notícias se equiparem à condição de credibilidade de um

site

de notícias falsas. Isso é péssimo para a qualidade de informação”, avaliou o editor do PIB.

Demori contextualiza que o preço da informação de qualidade é alto. Para ele,  a situação econômica de baixa venda de jornais, passaralhos (demissão em massa de jornalistas), diminuição de anunciantes foi propensa aos interesses da força-tarefa da Lava Jato. O jornalista explica que a operação fez grande favor à imprensa: forneceu vazamentos. Não mais precisaria de uma grande equipe de jornalismo para investigar, apurar os fatos, tomando como exemplo as delações vazadas como verdade, um jornalismo declaratório por meio das propostas de delações, de graça, desde que, comprometidas com os objetivos dos procuradores e o juiz do caso. As redações não têm mais dinheiro para investir em jornalismo investigativo.

“Noticia grátis, altamente explosiva com alto grau de audiência. Esse produto da Lava Jato grátis é igual venda de um jogo do Brasileiro da série A, em que a empresa tem de comprar direitos, licenças. Então houve essa ausência de cobertura crítica da Lava Jato.”

O editor do TIB argumenta que a simples apuração crítica, dever da imprensa, não foi respeitada e, quando feita, jornalistas foram perseguidos.

“Foram divulgadas delações, que nem chegaram a ser aceitas, como as do Palloci, que o próprio Moro disse nos

chats

do Telegram que eram fracas, mas foram usadas como instrumento político no ano passado. A imprensa toda fazendo matéria sem se questionar, sem fazer cobertura crítica”, enfatizou.

Quem fez uma cobertura crítica, os poucos repórteres, assim como ocorreu na Itália na Operação Mãos Limpas, foi massacrado, afirmando que esses veículos e jornalistas eram a favor da corrupção. “Essa tática do Sergio Moro esta sendo usada contra a gente da Vaza Jato. Quem esta questionando a Lava Jato é a favor do bandido. Uma visão binária.”

Uma nova forma de leitura crítica da imprensa

Pesquisa citada por Demori afirma que a confiança da população nas instituições é de apenas 10% dos jovens de 15 a vinte e poucos anos. Acreditava na imprensa tradicional, um em cada dez jovens.

“Bolsonaro aparece com esse movimento antiestado, apolítico, assim como na Itália com Silvio Berlusconi, que surge como o antipolítico, com o discurso de anticorrupção, de que já era rico e não precisaria roubar. ‘Eu já sou rico o suficiente, que não preciso roubar’.”

“Existe uma superestrutura, antiestado, lava-jatista, anticorrupção, que quer acabar com o sistema político, e o Bolsonaro surfa nessa onda. Ele não é nada sozinho. A Mãos Limpas bateu tanto no sistema político italiano que dissolveu vários partidos tradicionais como Partido Social Cristão, Partido Comunista Italiano, Partido Socialista. Todos os grandes partidos acabaram como se a operação no Brasil terminasse com PT, PSDB, PMDB e DEM. O sistema político lá [Itália] foi implodido, mas não há democracia sem sistema político”, lembrou.







Público acompanha em Campo Grande palestra sobre jornalismo investigativo e democracia


O que o Intercep esta fazendo agora?!?!

“Não sei qual a forma, mas vamos falar o que a gente esta fazendo no TIB. O jornalismo brasileiro vive cada vez mais com menos

offs

. Quando vamos fazer uma matéria, nós temos que partir de um princípio que as pessoas estão duvidando. Essa é a regra do jogo a partir de agora. É mais fácil convencer alguém quando se fala em

off

. Faça um paralelo e vá atrás de outras fontes, que podem confirmar essa história. Isso ajuda a dar credibilidade. Isso aqui foi falado por tal pessoa. Esses dados são desse lugar. Isso é muito importante, porque

sites

de notícias falsas não têm fonte. Se formos nivelar por isso, vamos perder para eles [

fake news

]. Eles vão ver a matéria e dizer ‘é

off

, é falso’. Isso será necessário para reconquistar o interesse do público”, esclareceu.

Para o jornalista, o celular hoje é uma máquina de matar notícias. “Porque nós [jornalistas] estamos lutando pela atenção contra o entretenimento nos mesmo lugar [smartphones]. Há alguns anos a pessoa estava lendo uma revista e não tinha a possibilidade que no mesmo lugar aparecesse um vídeo, um meme, um trecho de um programa que ela perdeu. Hoje, após três meses da construção de uma matéria, ela é destruída com um simples rolar de dedos para passar o conteúdo a diante.

Pensamos o tempo todo que nossas matérias tenham apego emocional, sem ser piegas, sem ser falso, sensacionalista e que as pessoas olhem aquilo e acreditem naqueles primeiros 15 segundos. A responsabilidade de ser interessante é nossa”, avaliou sobre a nova forma de fazer jornalismo nos tempos de

fake news

.

Para Demori a nova forma de fazer jornalismo vai além das fontes e chega à linguagem que deve ser cada vez mais simplificada em tempos de redes sociais para atingir todos os públicos.

Outro ponto é a questão do financiamento de uma empresa jornalística. Leandro conta que o TIB é financiado por uma associação americana de um jovem filantropo que ficou bilionário aos vinte e poucos anos e apoia a iniciativa tanto nos Estados Unidos como no Brasil. Além dessa entidade mantenedora, o

site

conseguiu cerca de 11 mil assinantes, que totalizam uma fonte mensal de mais ou menos R$ 300 mil, que ajudam no financiamento das matérias e a manter a equipe de 18 pessoas entre jornalistas, estagiários e administrativos.

Para o Intercept, é preciso se unir a pessoas que gostam de dinheiro, querem empreender, pois se não vai pegar um outro amigo jornalista, que não entende nada de dinheiro, vão colocar uma grana e depois desistir.

TIB x Globo

A “briga” entre o Intercept e a Rede Globo de Televisão


foi comentada, já que a líder de audiência ainda não entrou de fato na cobertura da Vaza Jato. Leandro lembrou que o jornalista Glen Greenwald, editor cofundador e colunista do TIB, foi até a Globo oferecer uma parceria para divulgação da Vaza Jato, pois sentia que havia um certo veto em relação aos conteúdos bombásticos relevados anteriormente pelo

site

e não-repercutidos pelo canal. Sem resposta convincente de que o conteúdo seria publicado pelos veículos da Globo, não foi concretizada a parceira, para que, se o conteúdo do TIB fosse repercutido pelo Fantástico, tivesse uma boa audiência e alertasse a população sobre os abusos da Lava Jato, que um dia ela poderia sofrer. O jornalista lembrou que vai a programas como Pânico na Jovem Pan e no Reinaldo Azevedo porque é importante que os conteúdos da Vaza Jato sejam de conhecimento público.



Assessoria de Imprensa da ADUFMS Seção Sindical ANDES Sindicato Nacional

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