“Eu creio que pelo Brasil inteiro vai levantar ou já levantou índios esclarecidos como eu”, 33 anos da morte de Marçal de Souza

01 jan, 1970 Adufms

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Marçal no I Seminário Sul-Mato-Grossense de Estudos Indigenistas – 1980 (Foto: Acervo CDR/UFGD)

Banguela e de estatura pequena, mas imponente, o Guarani Ñandeva Marçal de Souza foi um importante líder indígena brasileiro. Ele lutava pela defesa dos interesses dos índios, como a demarcação de terras e valorização da cultura de seu povo.


Desde o nascimento, Marçal estava predestinado a ser um líder: no batismo Guarani recebeu o nome Tupã-i, que significa Pequeno Deus. Ele nasceu em 24 de dezembro de 1920 em Rincão do Júlio, na região de Ponta Porã (MS).

Em 1923 sua família mudou-se para a aldeia Tey Kuê, em Caarapó (MS). Ainda criança, ele foi picado por uma cobra e levado ao Hospital Caiuá, da Missão Presbiteriana de Dourados (MS). Nesta época, seus pais morreram e a guarda dele ficou com a Casa dos Órfãos, a “Nhanderoga” da

Missão Evangélica Caiuá

. Lá, Marçal recebeu educação não-indígena. Os missionários logo notaram uma característica marcante do Guarani: a oratória.

Quando completou 12 anos, Marçal foi morar em Campo Grande com uma família presbiteriana, onde estudou no colégio Oswaldo Cruz. A estadia não foi benéfica para o Guarani, que mais tarde, foi acolhido pela família do oficial de exército Alípio Benedito Cerqueira de Castilho. Eles se mudaram para Recife (PE) com Marçal, que trabalhou e em troca, recebeu alimentação, moradia e educação.

No entanto, na década de 1940, Marçal decide retornar ao então estado de Mato Grosso, com saudade de sua gente. De volta a Dourados, ele trabalhou como professor, intérprete e pregador evangélico na Missão Caiuá. Notando a aptidão religiosa, os missionários o enviam a Patrocínio (MG), onde Marçal estudou Teologia e outras ciências. A religião do “branco” desde cedo teve uma forte influência em sua vida. Após três anos em Minas Gerais, ele retorna a Dourados como presbítero, mas sem abandonar sua cultura Guarani. Ele cantava nos cultos e lia a bíblia em seu idioma.

Ele se casou com dona Aristídia Silva de Souza, filha de indígenas do Paraguai. Tiveram sete filhos biológicos e outros três de criação. Nos anos seguintes Marçal viveu na aldeia Jaguapiru, parte da Reserva Indígena de Dourados, local que muitos antropólogos, pesquisadores e estudantes visitavam. O líder Guarani – por ser um grande conhecedor da cultura do não índio – fazia a ponte entre os visitantes e a comunidade, ajudando, por exemplo, na tradução do idioma. O contato com os estudiosos teve um papel importante na formação de Marçal, pois possibilitou que ele valorizasse ainda mais sua própria cultura.

Em 1959 ele fez um curso da Organização Mundial da Saúde (OMS). Com o diploma, se tornou enfermeiro, profissão que exerceu até os últimos dias de vida. Na comunidade, as pessoas o procuravam para pedir consolo em palavras ou em medicamentos. Sua casa constantemente recebia muita gente, inclusive, como ponto de encontro para conversas informais ou relativas à organização da aldeia. Indígenas de outras etnias eram recebidos sem distinção.

Em 1963 Marçal foi eleito capitão da Reserva, cargo ligado à Fundação Nacional do Índio (Funai). A função equivale a de um cacique, mas é uma liderança administrativa, e não tradicional. Ele era responsável por gerenciar conflitos da comunidade visando o bem estar geral. Em 1972, o Guarani deixou o cargo de capitão. Ele continuou sendo um líder para a comunidade, mesmo exercendo apenas a função de enfermeiro.

Marçal então decidiu afastar-se da Igreja Presbiteriana. A Missão foi importante porque permitiu a ele conhecer a cultura do não índio, mas após muito estudo ele chegou à conclusão que o melhor era viver plenamente sua cultura Guarani.

Já em 1974, por denunciar a extração ilegal de madeira na Reserva, Marçal sofreu agressão física. Ele trabalhava no posto quando foi abordado por indígenas liderados pelo novo capitão da reserva, Ramão Machado. Eles o levaram para fora do local, tiraram suas roupas e o espancaram. Apesar da violência sofrida, Marçal não culpou os índios.

“EU NÃO CULPO ÍNDIO NÃO, PORTANTO O ÍNDIO NÃO TEM CULPA NENHUM, ELES FORAM SUBORNADOS PELO CAPITÃO RAMÃO E O ENCARREGADO PRA FAZER ESSA INJUSTIÇA CONTRA A MINHA PESSOA” (Depoimento de Marçal no filme “Terra dos Índios” de Zelito Viana)
Foto: Acervo CDR/UFGD

Casa construída por Marçal na aldeia Tey Kuê (Foto: Acervo CDR/UFGD)

No dia seguinte ao ataque, a Funai transferiu arbitrariamente o líder para a aldeia Tey Kuê, em Caarapó (MS). Ele ficou proibido de retornar a Dourados, mesmo com a sua família na reserva. O órgão adotava esta medida regularmente e também era responsável por permitir que Marçal se locomovesse de um município a outro.

Vale lembrar que a Funai foi criada em 1967, em plena Ditadura Militar, após  o fim do

Serviço de Proteção aos Índios (SPI)

, criado em 1910 para “civilizar” os indígenas, sem respeitar a cultura deles, transformando-os em trabalhadores nacionais.

Mesmo em outro local, Marçal não se calou. Em 1978, com a criação do

Conselho Indigenista Missionário (CIMI)

em Mato Grosso do Sul, o líder viajou para vários lugares sem que a Funai soubesse. Ele era visto como um subversivo pelo órgão, e foi nessa época que ele falou em muitas palestras e espalhou pelo Brasil suas ideias.

Em 1980, foi realizado em Campo Grande o I Seminário Sul-Mato-Grossense de Estudos Indigenistas, que teve a presença de várias lideranças, como o deputado federal Mário Juruna e antropólogos como Darcy Ribeiro. Marçal então proferiu um grande discurso. Os gestos e a oratória impressionaram os participantes, momento capturado pelas lentes do fotógrafo Roberto Higa.

“CONTINUAMOS SENDO AMEAÇADOS PELOS BRANCOS DE DESPEJO, DE SER EXPULSO COM AQUELES REMANESCENTES KAIOWÁ QUE POR TEIMOSIA ESTÃO OCUPANDO A ZONA URBANA DE UMA VIA QUE É, PERTENCE À MUNICIPALIDADE DE ANTÔNIO JOÃO” (Fala de Marçal no I Seminário Sul-Mato-Grossense de Estudos Indigenistas em 1980)

No mesmo local, foi criada a

União das Nações Indígenas (UNI)

, com Marçal como um dos idealizadores. Em 1980, Marçal foi escolhido pelas lideranças indígenas para levar ao Papa João Paulo II um relato de dor sobre a realidade indígena durante a primeira visita do pontífice ao Brasil em Manaus (AM).

Já em 1982, mediante assembleia das lideranças indígenas, Marçal foi selecionado para representar a UNI e o povo indígena brasileiro em uma conferência promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU) em Boston nos Estados Unidos.



Jornal Porantim, edição de novembro de 1985, página 6 Foto: Acervo CDR/UFGD

Depois de Caarapó, Marçal foi novamente transferido pela Funai, desta vez para a aldeia Pirakuá, em Bela Vista (MS). Nesse período, ele se envolve com a luta pela permanência dos patrícios Guarani-Kaiowá na região. Segundo o jornal Porantim (edição de novembro de 1985, página seis), o fazendeiro Líbero Monteiro, dono da fazenda Serra Brava que ficava no local, incorporou ilegalmente áreas de Pirakuá à sua propriedade visando à produção no solo fértil e a extração de madeira.

Como Pirakuá fica às margens do rio Apa, Marçal ficava isolado e por isso, resolveu mudar-se para a aldeia Campestre, em Antônio João (MS), onde construiu um rancho e decidiu viver ali, próximo ao seu povo. O novo lar, compartilhado com a Kaiowá Celina Fernandes Villalba, proporcionou mais facilidade de locomoção ao líder, por exemplo, para poder visitar a família na Reserva em Dourados.

Marçal relatou para familiares que Líbero Monteiro ofereceu dinheiro para que ele convencesse os Kaiowá a saírem da região, mas ele recusou. O líder não tinha medo, sabia que era uma pessoa marcada pra morrer, “mas por uma causa justa, a gente morre”, como ele mesmo declarou.

Era noite em 25 de novembro de 1983. Marçal estava em sua casa na aldeia Campestre, com a companheira Celina. De repente, alguém bateu na porta do Guarani, pedindo ajuda. Disse que o pai estava com dores no estômago. Sem hesitar ele abriu a porta, e recebeu cinco tiros, sendo um deles na boca.

Após o assassinato era esperado que a justiça exercesse seu papel. Mas o que ficou claro é que ela não é igual para todos. Alguns indícios no caso Marçal: a cena do crime foi descaracterizada e apenas em 1988 foram ouvidas as testemunhas, em 1991 foi realizada a exumação do corpo de Marçal e só em 1993 é realizado o primeiro julgamento do caso em Ponta Porã. Em 1998 é realizado o segundo julgamento que inocenta o acusado, Líbero Monteiro. Em 2008, houve o término do processo.

A morte de Marçal reflete o descaso do Governo em suas várias esferas com a população indígena. Ele denunciava a extração de madeira ilegal, exploração de mão de obra indígena e sexual de meninas índias, e por fim, reclamou o direito das etnias de permanecerem em seus territórios tradicionais, problemas que prosseguem até hoje.

A história, que sempre foi escrita com sangue para os indígenas desde a colonização, permanece no presente desta forma. No dia 29 de agosto de 2015 uma liderança Guarani-Kaiowá, Simião Vilhalva, foi assassinada em Antônio João, mesma região que ouviu os disparos a Marçal de Souza.

O que resta ao povo de Marçal? Continuar na luta por direitos. É o que têm feito, com várias retomadas aos territórios tradicionais e a reclamação por outros direitos, como saúde e educação. As palavras de Marçal de Souza continuam ecoando, até que todos os direitos indígenas sejam conquistados e mantidos.

*texto por Carol Caco e Natália Moraes



Assessoria de Imprensa da ADUFMS-Sindicato

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