Organização sindical dos docentes e das docentes da UFMS

NA ESCOLA DO NADA, O QUE É QUE SE ENSINA? NADA!

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4 de abril de 2016

Maria Dilneia

Então é verdade! Não se tratou da popular e nacional brincadeira que é aquela de considerar o dia 01 de abril como o “dia da mentira” e sair por aí, assustando a todos com questões fora da realidade!

Pasmem Senhoras e Senhores! As escolas que integram o Sistema Municipal de Educação de Campo Grande, estão sem currículo em razão da aprovação, pelo Poder Legislativo Municipal da Lei n. 8.242/2016.

Também fiquei sabendo pela imprensa, pelas redes sociais e nas rodas de conversas que, somente dois Vereadores votaram contra a Lei n. 8.242/2016. Foram eles a Vereadora Luiza Ribeiro (PPS) e o Vereador Eduardo Romero (Rede Sustentabilidade). Então quer dizer que os demais nobres Vereadores, eleitos pelos demais nobres partidos políticos são contra a escola ter currículo? É isso mesmo? Sim, porque de acordo com os dispositivos da Lei aprovada, trata-se que, doravante, na escola não se faz mais nada. Porque a escola, segundo a mencionada Lei, não pode mais ensinar, educar, debater e discutir os grandes temas que são caros à humanidade. Li uma argumentação que dizia: “a escola tem que ensinar português e matemática”! Estou de acordo. Porque a escola tem que ensinar também Geografia, Sociologia, História, Economia, Cidadania, Liberdade de Expressão, entre outros temas tão caros que foram/estão sendo construídos pela humanidade ao longo de seu processo histórico.

A questão de fundo é: como é que se ensina, se educa na escola a partir das grandes questões que a humanidade tem se colocado enquanto processo de cultura e civilização?

Acaso não é a Economia Política que determina o preço do feijão nosso de todo dia, entre outros preços? Acaso não é História que registra que o primeiro grande movimento de “globalização” foi o mercantilismo? Que a humanidade já matou e morreu em duas guerras mundiais? E que o “Breve Século XX”, como nos mostrou o Historiador Eric Hobsbawm foi o século da guerra? Acaso não seria a Geografia a nos indicar que tempos e espaços existem e que suas ocupações são históricas? Acaso vamos banir da escola a literatura com seu fôlego crítico presente na obras de Aluízio Azevedo, Machado de Assis, Raquel de Queiroz, Clarice Lispector, Cecília Meireles, Ana Miranda, Jorge Amado, entre outros e outras, só para ficar na literatura brasileira… Porque a grande contribuição desses literatos com suas obras para a humanidade, foi justamente a de fazer a crítica radical da sociedade em seu tempo por meio da política, da economia, de suas crenças, valores, costumes e por ai afora. Então professores e alunos pertencentes ao Sistema Municipal de Educação não podem mais aprender com tais personalidades da literatura brasileira? Porque adentrar a escola, seja em seu pátio, corredores e sala de aula acompanhados por essas personalidades expressivas da literatura brasileira, reconhecidas internacionalmente, significa dialogar na escola com tudo aquilo que a Lei n. 8.242/2016 proíbe.

Acaso os conteúdos escolares que são organizados por meio do currículo escolar, mesmo quando meramente prescritivos, não devem tratar dessas temáticas? O currículo tratará do que então? Será o currículo escolar mais uma vez na história o instrumento de negação do direito à educação? Sim, porque entrando em vigor a Lei em questão, se atingirá o objetivo de negar o conhecimento produzido e sistematizado e ainda aquele em construção pela humanidade a milhares de crianças, jovens e adolescentes da sociedade Campo-Grandense.

Cara Vereadora Luiza Ribeiro e Caro Vereador Eduardo Romero: vocês me representam no Parlamento Municipal Campo-Grandense. Representam a mim a e milhares de crianças, adolescentes e jovens que tem na escola pública municipal o espaço por excelência da construção coletiva de conhecimentos e de um projeto de civilização socialmente referenciado! Nossos agradecimentos a ambos.