Organização sindical dos docentes e das docentes da UFMS

Uma reflexão sobre Martírio

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15 de maio de 2017

Emoção, indignação, denúncia, realidade, história, resistência e luta. São sentimentos e consciência politica, que se misturam fortemente ao assistirmos o filme Martírio, de Vincent Carelli. O trabalho é resultado de pesquisa em diversos arquivos, de filmagens e coleta de depoimentos, ao longo de 20 anos, referente a um dos principais problemas sociais brasileiro: a situação dos povos indígenas Guarani Kaiowá, aqui em Mato Grosso do Sul.

Interessante, mas compreensível que a estréia do filme no circuito comercial em Campo Grande só tenha ocorrido em razão da pressão. Pessoas e entidades comprometidas com a luta dos povos indígenas pressionaram os/as comerciantes que monopolizam a chamada “indústria cultural do cinema” na cidade. Compreensível, porque se trata de uma denuncia devidamente documentada e expressada pela voz e o silencio das próprias vitimas, os povos Guarani Kaiowá, que foram expropriados das das suas terras no decorrer da história.

Viviam e se reproduziam livremente nessa região. No século XVIII, os bandeirantes adentram no território ao sul do então Mato Grosso, caçaram ou encurralam os Guarani Kaiowá. Em seguida, após a Guerra do Paraguai, o governo imperial e também do regime republicano, arrenda para a companhia Mate Laranjeira milhões de hectares de terra pertencentes a esses povos, agora reduzidos a mão de obra barata nos ervais da companhia. Na passagem do século XVIII para o XIX, a construção ideológica de uma nação rumo ao progresso ganha força, de inserção no mundo considerado civilizado.

Os povos indígenas originários não tinham espaço no projeto excludente de nação que a elite se empenhava em construir, porque esta pautava-se no etnocentrismo e numa perspectiva humanitária. Nesse sentido, foi criado em 1910 o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), um instrumento oficial cujas tarefas importantes eram “moldar” o/a índio/a em um novo ser e civilizar, desenraizado/a de sua cultura tradicional e obrigado/a a viver em pequenas reservas.

Não foi diferente a politica oficial de colonização da fronteira oeste empreendida pelo governo de Getúlio Vargas, cujo exemplo foi a criação da Colonia Agrícola Nacional de Dourados, em 1940. Muito menos ainda, a partir da década de 1980, as políticas oficiais de incentivo a expansão do agronegócio com a plantação da soja, pastos para pecuária, plantações de milho e cana para a produção de açúcar e de etanol.

Tendo como referência as conquistas importantes na Constituição de 1988, como o direito a demarcação de seus territórios e o reconhecimento a sua auto determinação, a força inquebrantável dos seus antepassados e do poder de suas rezas que invocam um mundo espiritual, a capacidade de articulação e mobilização de importantes lideranças, esses povos se auto organizaram e promoveram a retomada de seus territórios pelas próprias mãos, já que o governo federal não cumpriu sua responsabilidade de fato e direito para com as demandas históricas dos Guarani Kaiowá.

O filme retrata a dura realidade atual em que vivem os/as nossos/as irmãos/ãs indígenas, confinados em pequenas aldeias, morando em barracos de lona, sentindo o desprezo e o ódio , sofrendo todo o tipo de violência, privados das necessidades básicas de sobrevivência, inúmeras lideranças assassinadas, conflitos internos e elevado numero de suicídios. Retrata também a voz daqueles/as que se opõem aos interesses dos povos indígenas, a bancada ruralista, autoridades politicas do poder estadual e fazendeiros/as que compõem a elite econômica local.

Parabéns às mães Guarani Kaiowá, que nas situações mais adversas, encontram força para lutar pela sua vida, de seus filhos/as, do seu povo.

Mulheres guerreiras, mulheres da luta, um filme que vale a pena assistir.

Francisco Givanildo dos Santos

 Professor de História na rede publica de ensino e Mestre em Educação