Organização sindical dos docentes e das docentes da UFMS

Geppes-MB

O balcão de negócio da educação superior

Sguissardi: “O ensino superior é uma commodity” (fotos: Arnor Ribeiro/ADUFMS-Sindicato)

Já há algum tempo a educação superior vem sendo rentável negócio do capital no mundo globalizado. No Brasil as palavras usais não mais dão conta de compor o universo semântico de pesquisadores que se dedicam a estudar a mercantilização da formação de cidadãs e de cidadãos na universidade. Políticas estatais transformam as instituições universitárias em valoroso produto no balcão da iniciativa privada.

Muito além de simples nomenclaturas, os neologismos são instrumentos para se buscar entender, por meio de pesquisas, mecanismos intangíveis com o uso de conceitos convencionais no campo da educação universitária.

Na palestra Alguns Desafios Atuais da Educação Superior no Brasil, ocorrida dia 4 de maio na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) em Campo Grande, durante o colóquio Educação Superior e os Desafios da Década,  organizado pela ADUFMS-Sindicato, pelo Grupo de Estudos e Pesquisas Política de Educação Superior Mariluce Bittar (Geppes-MB) e pelo Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu-UFMS), com apoio da Faculdade de Educação (Faed),  o Professor Doutor Valdemar Sguissardi – docente aposentado das universidades Federal de São Carlos (UFSCar) e Metodista de Piracicaba (Unimep) – analisou a mercadização, a  mercadorização e a commoditycidade da universidade no país. “O ensino superior é uma commodity”, definiu o pesquisador que, de acordo com seu Currículo Lattes, atua “principalmente nos seguintes temas: educação superior, política de educação superior, reforma da educação superior, público e privado na educação superior.”

A commoditycidade sintetiza o crescente avanço da universidade brasileira como mercadoria, um negócio como outro qualquer. No livro Da universidade à commoditycidade: ou de como e quando, se a educação/formação é sacrificada no altar do mercado, o futuro da universidade se situaria em algum lugar do passado (editora Mercado das Letras, 2017), os pesquisadores Lucídio Bianchetti e Valdemar Sguissardi usam esse neologismo que “resumiria essa nova característica das Instituições de Educação Superior que grassam país afora, especialmente nos centros urbanos mais populosos, onde a presença de clientela, seja pelo número, seja pela pressão para ‘diplomar-se’, está assegurada”.

Durante a palestra Alguns Desafios Atuais da Educação Superior no Brasil, o professor Valdemar Sguissardi apresentou e esmiuçou dados sobre o negócio em que se transformou a universidade privada no país. Em um gráfico elaborado pelo Professor Doutor aposentado da Universidade Federal de Goiás (UFG), Nelson Cardoso Amaral, o professor Sguissardi historiou o quanto o privado vem dominando a formação de pessoas desde o início da ditadura civil-militar em 1964. Naquele ano do golpe, as matrículas em universidades públicas correspondiam a 61,6%. As instituições de ensino superior privadas detinham 38,4 % das matrículas/os em 1964.

Ao final dos dez primeiros anos dos governos autoritário-repressivos, em 1974, chegando a 63,5% das matrículas, o setor privado já superava as matrículas públicas. Em 1974 as matrículas no setor público haviam caído para 36,4%.

Até 1985 os percentuais permaneceram favoráveis ao setor privado com brandas oscilações que não interferiram radicalmente ao ponto de reverter a situação. A partir de 1995, com a política neoliberal implantada pelos governos de Fernando Henrique Cardoso (PSDB), houve queda vertiginosa das matrículas no setor público, até 2002: de 39,8% para 24,7%. À medida que caíam as matrículas públicas aumentavam as do setor privado: de 60,2% em 1995 para 69,8% em 2002.

“O Estado é muito mais uma arena de combate entre interesses públicos e privados”Nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), embora em menor escala, as matrículas do setor privado continuaram subindo com uma ligeira situação estática em 2010.

A situação a partir de 2011 prosseguiu praticamente inalterada com pequeno decréscimo nas matrículas públicas até 2016, ano ao qual se estende a abrangência do gráfico. Nas instituições privadas o número de matrículas cresceu de 73,7% em 2011 para em torno de 75,3% em 2016.

Abarcando o último governo de FHC e os dois de Lula da Silva, as instituições de educação superior públicas (federal, estadual e municipal) aumentaram suas matrículas de 886.561 (1999) para 1.461.696 (2010). Nesse período (1999-2010) as matrículas nas instituições privadas de ensino superior particulares elevaram-se avassaladoramente: de 651.362 em para 3.386.923.

Nesse cenário, Valdemar Sguissardi explica que “o Estado é muito mais uma arena de combate entre interesses públicos e privados”. Pelos dados apontados, o privado tem nocauteado o público, o que demonstra os pendores do Estado Nacional no sentido de estimular a mercadização da educação superior.

 

 

Assessoria de Imprensa da ADUFMS-Sindicato

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