Por: Paulo M. Esselin. Prof. Titular aposentado da UFMS – 01/10/2026
Recentemente, em um evento do Café & Política, o ex-governador de Mato Grosso do Sul e candidato ao Senado, Reinaldo Azambuja, apresentou seu projeto para a área ambiental. Em sua fala, afirmou ter aconselhado o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro a extinguir o Ministério do Meio Ambiente e incorporá-lo ao Ministério do Desenvolvimento Econômico, reproduzindo, segundo ele, o modelo adotado em Mato Grosso do Sul. Também classificou como “tapados” os setores da esquerda que discordam de suas posições e tratou restrições ambientais como obstáculos à competitividade.
O problema central dessa posição não está apenas na proposta administrativa, mas na forma como ela desqualifica o debate público. Chamar de “tapados” todos os que pensam de maneira diferente substitui os argumentos pela hostilidade e revela pouca disposição para enfrentar a complexidade científica da questão ambiental. Dragagem de rios, desmatamento, poluição e expansão da fronteira agrícola não são assuntos que possam ser resolvidos por frases de efeito: exigem estudos técnicos, avaliação de impactos e responsabilidade pública.
Também é incorreto apresentar a proteção ambiental como uma invenção da esquerda ou como uma agenda contrária ao capitalismo. Os principais avanços institucionais e científicos nessa área surgiram em países capitalistas desenvolvidos. A Suécia sediou, em 1972, a primeira grande Conferência Internacional das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, enquanto os Estados Unidos já haviam estruturado, na década anterior, iniciativas políticas e científicas voltadas ao tema.
Desde então, pesquisadores de centros de excelência na Europa e nos Estados Unidos vêm alertando para os efeitos da degradação ambiental provocada pela ação humana. No governo de Jimmy Carter, por exemplo, a instalação de painéis solares na Casa Branca teve forte valor simbólico: indicava a necessidade de diversificar a matriz energética, reduzir a dependência de combustíveis fósseis e investir em fontes renováveis.
Esse processo consolidou a ciência ambiental e climática, que hoje dispõe de métodos para demonstrar a relação entre desmatamento, poluição, perda de biodiversidade e agravamento de eventos extremos, como secas prolongadas, enchentes e ondas de calor. Ignorar esse conhecimento em nome de interesses imediatos do agronegócio não representa modernização; significa expor a sociedade, a economia e a própria produção rural a riscos crescentes.
Se eleito senador, o ex-governador poderá atuar para alterar regras destinadas à proteção do meio ambiente e reduzir a autonomia dos órgãos responsáveis por fiscalizar atividades econômicas de grande impacto. Como liderança ligada ao agronegócio, deverá ser cobrado a demonstrar que suas propostas não subordinam o interesse público aos interesses de um único setor. A competitividade do país não depende da eliminação de salvaguardas, mas de estabilidade regulatória, inovação tecnológica e uso responsável dos recursos naturais.
Por isso, não cabe chamar de “tapados” a esquerda ou aqueles que defendem a proteção ambiental. A verdadeira cegueira está em desconsiderar o que ocorre no mundo, no Brasil e, sobretudo, em Mato Grosso do Sul. Em 27 de setembro, uma estação instalada pela Ecoa em Ladário registrou 43 °C, umidade relativa do ar de 35%, vento de 3 km/h e sensação térmica de 51 °C. Esses dados não autorizam simplificações, mas evidenciam a urgência de políticas capazes de prevenir e reduzir riscos.
O quadro das queimadas reforça a preocupação. Dados do Laboratório de Aplicações de Satélites Ambientais da UFRJ indicam que Mato Grosso do Sul teve 184,8 mil hectares queimados entre janeiro e setembro deste ano, ante 178,1 mil hectares no mesmo período de 2025 — aumento de quase 4%. Veja a situação do rio Paraguai, a redução crônica e severa no volume de água.
Campo Grande também enfrentou ventos de aproximadamente 90 km/h, chuva torrencial, interrupções no fornecimento de energia e prejuízos à população. Diante de sinais tão concretos, enfraquecer a legislação e os órgãos ambientais seria uma escolha no mínimo imprudente. O debate responsável exige conhecimento científico, respeito aos divergentes e compromisso com o futuro coletivo — não insultos nem ilações.
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