
Professor aposentado do Instituto de Física da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) e filiado à Adufms, Moacir Lacerda construiu uma carreira dedicada ao estudo das descargas atmosféricas, da eletricidade atmosférica e dos sistemas de alerta para raios. Atuando na área desde o final da década de 1980, o pesquisador possui doutorado em Geofísica Espacial e pós-doutorado em Meteorologia.
Ao longo de sua trajetória, Lacerda desenvolveu pesquisas sobre a incidência de raios em Mato Grosso do Sul e no Pantanal. Ainda no início dos anos 2000, seus estudos contribuíram para demonstrar que o estado figurava entre os líderes nacionais em ocorrência de descargas atmosféricas. Mais tarde, participou da criação do Laboratório de Ciências Atmosféricas (LCA) da UFMS, fundado por volta de 2006 e que permanece em atividade sob coordenação de outros pesquisadores da universidade.
O laboratório cresceu ao longo dos anos e se consolidou como uma das principais iniciativas de pesquisa do Instituto de Física. Na avaliação do próprio pesquisador, “esse projeto cresceu bastante e hoje é um dos projetos mais importantes” da unidade.
Apesar da associação frequente com estudos sobre incidência de raios, o foco atual da pesquisa é mais amplo. Segundo Lacerda, “nossa pesquisa não é exatamente sobre a incidência de raios no Brasil. Nossa pesquisa é sobre o monitoramento de tempestades”, atividade que busca compreender o comportamento elétrico da atmosfera e antecipar eventos potencialmente perigosos.
Para isso, a equipe desenvolveu um protótipo de sensor de campo elétrico que foi sendo aperfeiçoado ao longo dos anos. O equipamento monitora continuamente a atividade elétrica da atmosfera e registra alterações características provocadas pela aproximação de nuvens de tempestade. Os dados coletados servem tanto para pesquisas científicas quanto para aplicações práticas relacionadas à prevenção de acidentes.
Uma das principais aplicações da tecnologia é a emissão de alertas de raios em tempo real. De acordo com o pesquisador, os sensores conseguem identificar condições favoráveis à ocorrência de descargas atmosféricas antes que elas aconteçam. Segundo ele, o sistema permite prever “quando vai cair um raio, com antecipação de entre 10 e 20 minutos, com uma média de 15 minutos”.
Atualmente, o monitoramento não é realizado em escala nacional. Em vez disso, o grupo mantém uma rede de estações instaladas em diferentes regiões estratégicas para o acompanhamento das tempestades. As bases estão localizadas em Campo Grande, São Paulo, na Amazônia, em Santarém, em Santa Catarina e também na África do Sul.
A presença dos equipamentos em diferentes ambientes climáticos permite ampliar a coleta de dados e aperfeiçoar os modelos de monitoramento. Todas as estações operam com os mesmos objetivos: produzir conhecimento científico sobre tempestades e contribuir para o desenvolvimento de sistemas de alerta cada vez mais precisos.
Os resultados obtidos pelo grupo também alcançaram reconhecimento internacional. Recentemente, um trabalho desenvolvido pela equipe foi apresentado na principal conferência mundial dedicada à proteção contra raios, realizada no Japão. Conforme relata Lacerda, “essa conferência é a maior conferência internacional de proteção contra raios e nós tivemos um trabalho aprovado e apresentado agora”.

O estudo apresentado no evento contou com a participação de pesquisadores de três continentes e reforçou a projeção internacional de uma pesquisa que teve origem na UFMS. A colaboração reuniu cientistas da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade do Porto, em Portugal, e da University of the Witwatersrand, na África do Sul, demonstrando o alcance da rede de cooperação construída ao longo dos anos em torno do monitoramento de tempestades e da proteção contra raios.
Após sua aposentadoria na UFMS, o pesquisador deu continuidade ao trabalho por meio de um projeto de inovação tecnológica financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). A iniciativa integra o Programa Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas (PIPE), que busca estimular a criação de soluções tecnológicas a partir do conhecimento produzido por pesquisadores.
Atualmente, o projeto está sediado no Centro de Inovação, Empreendedorismo e Tecnologia (Cietec), ambiente de desenvolvimento tecnológico localizado no campus da Universidade de São Paulo (USP). Segundo Lacerda, a pesquisa encontra-se na fase final da segunda etapa de execução, com a equipe concentrada na elaboração dos relatórios técnicos e na prestação de contas exigida pelo programa de financiamento.
Do ponto de vista meteorológico, o pesquisador explica que a elevada incidência de raios no Brasil está diretamente relacionada às características geográficas e climáticas do país. A combinação entre grande extensão territorial, clima predominantemente tropical e a influência da Floresta Amazônica favorece a formação de tempestades intensas e, consequentemente, de descargas atmosféricas.
Para Lacerda, compreender esses fenômenos e desenvolver ferramentas capazes de antecipar a ocorrência de raios representa um avanço que ultrapassa os limites da pesquisa acadêmica. Além de ampliar o conhecimento científico sobre a atmosfera, os sistemas de monitoramento podem contribuir para a proteção de pessoas e atividades econômicas em um dos países com maior incidência de descargas atmosféricas do planeta.

