No último sábado (22), foi celebrado o Dia Mundial da Água, data que reforça a importância desse recurso finito essencial para a vida. No entanto, a distribuição de água potável segue desigual, refletindo o contraste entre áreas centrais e periféricas das cidades. Em Campo Grande, um dos exemplos desse problema é a Área de Preservação Permanente (APP) da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), onde estão localizados trechos do Córrego Bandeira, Cabaça e o “Lago do Amor”.
Na junção dos córregos Bandeira e Cabaça, foi criado, em 1968, o Lago do Amor, que inicialmente possuía uma área de 13 hectares. Porém, ao longo dos anos, a região vem sofrendo degradação devido à poluição, construções irregulares e, principalmente ao assoreamento, em função da entrada de sedimentos desde as áreas de nascentes até o Lago.
Lago do Amor
Um estudo realizado em 2016 pelos pesquisadores André Almagro, Rodrigo Pompeu e Teodorico Alves, do curso de Engenharia Ambiental da UFMS, apontou que a ação humana é o principal fator responsável pela erosão acelerada, impactando diretamente a preservação do lago. “A erosão, o transporte e a deposição de sedimentos são responsáveis pela modelação da Terra. Quando esta erosão é natural, esses processos geológicos encontram-se em condição de equilíbrio. A partir do momento em que o equilíbrio é rompido, ocorre a erosão acelerada. As perdas de solo na erosão natural são mínimas comparadas às decorrentes da erosão acelerada. O homem é o principal agente responsável pela erosão acelerada.”
Dados do Laboratório Heros e da Hidrosed, que monitoram periodicamente a área, indicam que, entre 2008 e 2022, o volume de água do Lago do Amor caiu quase pela metade – de 196.651,13 m³ para 108.725,27 m³. O processo de assoreamento já havia comprometido 45% da capacidade do lago. Caso nenhuma ação de recuperação seja tomada, os especialistas estimam que, em cerca de 15 a 16 anos, o lago poderá desaparecer completamente.
Imagens de satélite mostram a diminuição drástica da área:


Córrego Bandeira
O Código Florestal (Lei n. 12.651/2012) estabelece como Área de Preservação Permanente toda a vegetação natural localizada a 30 metros dos cursos d’água com menos de 10 metros de largura. Mesmo assim, a construção de prédios residenciais tem aumentado cada vez mais próximo ao córrego Bandeira, como acontece na região do bairro Parati. E este é apenas um dos casos.
Em um estudo publicado em 2021 pelo aluno de geografia, Felipe Gavioli e pela doutora em estudos de Ecologia e Conservação, Maria Helena da Silva Andrade, da UFMS, em conjunto com a geógrafa Maria do Socorro Ferreira, da UFSE, foram analisados os impactos socioambientais sobre a bacia hidrográfica do Córrego Bandeira. Segundo o estudo, esta é a que mais sofre com o risco de assoreamento. O estudo explica: “Esse impacto é o resultado do processo de desgaste e transporte de sedimentos (erosão) em decorrência do solo exposto após a retirada da cobertura vegetal, sendo depositados nos corpos hídricos (CABRAL, 2005). Na área do Córrego Bandeira, esse processo ocorre devido à urbanização recente, com a implantação de vias urbanas e de novos loteamentos, que acabam provocando o aumento de áreas impermeáveis e de solos expostos (SOBRINHO, 2017).”

O estudo ainda aponta: “Na Carta de Drenagem da cidade de Campo Grande (1996), a bacia hidrográfica do Córrego Bandeira foi classificada com grau de criticidade I, relacionado a problemas como alagamentos, enchentes e inundações, além de outros ligados ao sistema de drenagem, como bocas-de-lobo com sedimentos e entupidas pela quantidade de resíduos sólidos (CAMPO GRANDE, 2017).”

Uma visão ampla da questão
Maria Helena explica que o problema principal começa nas nascentes dos córregos, que não são preservadas de forma adequada. “Para mim uma das questões mais importantes é a impermeabilização do solo nessas regiões, porque quando você faz isso, seja com uma rua, com uma praça cimentada ou até a construção de uma casa, a água não vai ser infiltrada pelo solo. Naturalmente esperamos que a água advinda chuva infiltre, há cálculos pra isso, portanto, quando se impermeabiliza uma área de nascente e esta recebe a água da chuva, a água escoa, e quando ela for escoar, para onde ela irá senão do lugar mais alto pro mais baixo? E quando ela escoa, ela não traz a água da chuva, traz sedimentos de solo, lixo e entulhos”, observa. Ainda sobre o processo de escoamento/alagamento que tanto vimos, a pesquisadora aponta: “Além da impermeabilização, nós temos também o aporte de sedimentos (processo humano) da bacia toda (no caso, a bacia hidrográfica do Bandeira) de forma descuidada, que acaba por acelerar o processo de carreamento de todo o sedimento do solo”.
Para Helena, há solução para os problemas que a cidade de Campo Grande enfrenta quanto às enchentes e sedimentação do solo próximo aos córregos, ela citou como exemplo várias cidades na China e no Japão que respeitaram as chamadas “áreas de freio (que, no caso dos rios, são suas curvas) que existem para desacelerar a velocidade com que a água desce. Para ela, uma das soluções para estes problemas está na renovação dos projetos urbanos visando a restauração dessas áreas que, hoje em dia, estão cobertas por edificações de todo o tipo.
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